sábado, 27 de agosto de 2011

Sinos

Escondo sob o meu silêncio
um bater de sinos
lá longe
que vem
não sei de onde,
talvez de lugar algum;
talvez não existam os sinos,
talvez seja um sonho,
mas meus olhos estão abertos
e a janela também está.

Está escuro
e nada vejo;
nem ao menos as horas
que me passam despercebidas
e os anos
que me empurram ao abismo
da velhice precoce,
do cansaço
e do esquecimento.

Talvez aqueles sinos
sejam só para mim,
sem nenhum destino,
mais perto do fim.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Fim de chuva

Repousa a chuva em poças rasas
pingando reticente
em uma quietude complacente,
inacabada.

Finas, algumas gotas se desfazem
no ar,
antes de tocar
o chão.

E agora mãos estendem-se
da janela para fora,
tentando sentir se já foi embora
a chuva.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Verso torto

Verso torto
morto
solto no ar

quebrado
e espalhado
pelo ventilador

lançado
na parede branca
feito sujeira

são versos tortos, eu disse;
estão mortos, eu disse;
esta merda toda
está morta.

Dorme

Parto só,
para o sono;
ébrio de vinho
sozinho
vago
pelo corredor
até o quarto.

Acorda manhã

acordado pelo canto
baixo de um pássaro
longe;

a manhã chegou
e com ela o sol,

as roupas se estendem nos varais;
barulho de vassoura no meu teto
que é chão
do vizinho pouco quieto,
parte da canção
do passarinho
e do avião
(teco-teco)
que sobrevoa o céu de Salvador.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Palavrar

palavra
cortada

palavra
cor
de
nada

palavra
metamorfa

pá
de lavrar
a terra

larva
que consome

PALAVRAR

domingo, 14 de agosto de 2011

Par de versos perdidos

Um par de versos me vem à mente
e o deixo escapar,
com suas rimas atraentes
de um poema
aparentemente
regular;

não tenho tido tempo para a poesia,
não encontro mais em mim
o seu lugar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Noturno

O escuro cega os meus olhos,
mas ele não esconde
o seu corpo,
largado todo
ao meu lado
sem pudor,
sobre minhas pernas espalhado,
sob a pouca luz que te ilumina

e que desenha seus contornos,
os quais decalco com meus dedos
delineando seu espaço
no pouco espaço
que te ofereço.

São Paulo

São Paulo
fria
São Paulo
cinza
São Paulo
morta
nos olhos
dos que não te olham
nos olhos.

Passado e futuro

casa branca
casamento
catavento
no jardim;
verde
verde mato
poucas flores
de jasmim;
a árvore morta
mais ao canto
é poesia para mim;
os pedaços de nuvens brancas
no céu azul
fazem formas de animais
que correm pelos quintais
vizinhos,
e eu sentado sob o sol em uma rede amarrada nos pilares da garagem vejo o futuro vir lento,
soprando palavras no vento.